Tudo começa quando as luzes se apagam
eu fico aqui sozinho, pensando como escrever uma história, pensando como
escrever um poema que fale de amor ou de outras coisas da vida, como os muitos
sonhos que falecem a cada instante nessa atmosfera fútil, onde os holofotes
falam mais alto no fim da noite. Depois
de muito tempo escrevendo esboços de própria esperança, forjando rimas pobres e
ricas em versos calejados de sentimentos, que borbulhavam dentro de mim, depois
de muitas cartas de amor, romances toscos e ensaios de contos de gaveta, eu vim
parar aqui, onde as palavras adormecem nos flagelos sociais. O mundo em minha
volta já não me trás a excitação para escrever, é tudo muito neutro, com
pessoas que dormem e acordam em cima do muro, abraços e beijos digitados em
bate papos e onomatopéias de sorrisos que nunca se fizeram presentes na face.
É muita frase de auto-ajuda
espalhada em um mundo que não se ajuda, que não se encara e como diria Renato
Russo, gente que não se respeita. E o que escrever no meio disso tudo? Uma
novela de fofoca, traição e intrigas? Um romance de fantasias sexuais para
mulheres solitárias e carentes com perfil em rede social? Mais um livro de
demagogia que tem no título a vitória está dentro de você? Ou roteiro de
seriado que nunca reflete nem combate da diferença social das civilizações atuais?
Como viram opções de lixo literário para escrever não falta, e muitas dessas
opções acabam ganhando prêmios e cadeiras em academias nacionais e mundiais,
virando tema de palestras que são acessórios do capitalismo.
Mas o que escrever? Talvez sobre
esse mundo e muitos outros mundos já esquecidos, terras do nunca de um Peter
Pan que já cresceu e não consegue mais voar, sobre as cidades fantasmas quem
sabe, aquelas dos livros de ilustração mofados da biblioteca que fechou, ou
sobre a minha falta de criatividade melancólica e saudosista, que é mais uma
piada sem graça desse humor que chamam de inteligente. Eu ainda vou sentar nas
praças enfeitadas pelo descaso, e buscar motivação nos casais que nem sei se
vão estar lá; ainda vou ver pessoas se empurrando em busca de liquidações e
possibilidades vazias de um consumismo, e expor isso em minhas crônicas que
para muitos são pessimistas; ainda vou rimar verbos e adjetivos em poemas
sentimentalistas, que ficam arquivados nos meus documentos; e voltar para casa
numa manhã singular depois de mais uma noite de trabalho, onde nos intervalos
dos protocolos eu me perguntei constantemente, o que escrever? Sobre o que
escrever? E como escrever?
Eriberto Henrique, Jaboatão-PE. 04 de
Outubro de 2012.

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